Na última segunda 16/03 e terça 17/03 aconteceu em São Paulo o evento Capacity Latam 2009 organizado pela empresa Capacity Media da Inglaterra. O evento tem como foco o tema capacidade, seja ele relacionado a operadoras, provedores de conteúdo, redes de distribuição de conteúdo (CDNs), provedores de acesso etc. A audiência é composta na sua maioria de diretores e gerentes dessas empresas e as palestras e debates são de altíssimo nível.
Pode-se aprender muito indo a um evento como esse. pois é possível ouvir como o alto gerenciamento dessas empresas pensa, saber algumas das suas estratégias, fazer perguntas sobre alguns temas de interesses etc. E o mais importante: renovar ou aumentar o networking com as pessoas que realmente tomam decisões. Para quem precisa fazer um projeto com alguma das empresas participantes, falar com essas pessoas é fundamental para as coisas andarem.
Vou aqui falar um pouco do que vi e ouvi nas várias palestras e paineis evento.
Internet Como Item de Necessidade Básica
Segundo uma pesquisa apresentada em uma das palestras, o acesso à Internet para algumas famílias em alguns países é tratado como item de necessidade, sendo o penúltimo a ser cortado (alimentação é o último). Isso dá uma idéia de que uma vez conectado, sempre conectado e e-mail é tão importante quanto outros meios de comunicação. Pergunto-me se colocasse para o usuário decidir se ele preferia o telefone ao e-mail que ele decidiria. A Internet não é só fonte de informação e conhecimento, mas de lazer também.
Redes 3G, Satélites e Wimax
O crescimento das redes 3G coloca em colisão com os planos de expansão de redes Wimax em alguns países e por isso essas últimas podem não decolar. Como os preços de banda aqui no Brasil ainda são muito altos, capacidades de transmissão maiores ainda não são comercialmente viáveis e por enquanto a maioria se contentará com a velocidade oferecida pelo 3G.
A empresa O3B, que possui como acionistas o Google e o HSBC, apresentou uma solução global de banda larga via satélite com velocidades a partir de 1Mbps até 10Gbps. A idéia é cobrir o mundo todo com acesso de banda larga.
Consumo de Conteúdo Multimídia
Muitas famílias estão consumindo mais banda e conteúdo dentro dos seus lares nesses tempos de crise econômica. Foi mensionado um artigo da Cisco que citava que o tráfego crescia cerca de 300% ao ano devido ao consumo de conteúdo de alta definição via Internet. Isso pode contribuir para uma nova revolução que pode estar preste a acontecer: o fim das redes de TVs. O qual concordo em parte. O tema do fim da TV foi explorado por um painelista, mas ele não crê que isso irá acontecer rapidamente, mas em muitos anos. Bom, o artigo citado acima fala que irá acontecer logo, basta que mais pessoas tenham acesso a banda larga. Também foi mensionado a urgência em modernizar as leis do setor, que são bem antigas e atrasam nosso desenvolvimento.
Operadoras Móveis no Consumo de Banda de Cabos Submarinos
Até o começo de 2008, os maiores consumidores de banda das empresas de cabos submarinos que ligam o Brasil ao resto do mundo eram provedores de Internet e operadoras. Agora, as operaddoras móveis aparecem com um certo destaque, pois os celulares inteligentes estão fazendo as pessoas visualizarem mais conteúdo multimídia. Também foi reportado que o volume de dados transmitidos nesses cabos tem crescido 36% ao mês. Segundo a Global Crossing, uma das empresas de cabos submarinos, 30% do volume de dados transmitidos nos seus cabos é composto por vídeo. Também foi citado por um painelista que 70% do tráfego da América Latina tem como destino os Estados Unidos. As redes sociais ainda lideram como destino final.
Futuro da Direção das Conexões
Foi abordado em um painel que o número de usuários que produzem conteúdo aumentou muito e que isso está fazendo o tráfego ficar mais dentro dos próprios países. Um exemplo citado é o caso de Hong Kong, onde 78% do das conexões ficam locais. A previsão é que o tráfego da região fique mais local nos próximos 5 anos.
Capacidade dos Cabos Submarinos da América Latina
A Telefônica em um dos paineis informou que faz aumento de capacidade duas vezes ao ano para atender a demanda. Essas atualizações, segundo foi explicado, não se constituem em passar novos cabos, mas sim em aumentar a capacidade de transmissão dos existentes. Novos equipamentos implementam tecnologias mais avançadas, os quais permitem aproveitar o mesmo meio físico usando diferentes frequências para transmitir dados. Os cabos atuais podem ficar completamente saturados em 4 anos se o ritmo de crescimento se manter nos patamares atuais. Mas podem ganhar uma sobrevida de a tecnologia permitir ampliar sua capacidade com novos equipamentos e não novos cabos. A passagem de um novo cabo submarino demora 14 meses, afirmou a Telefônica. Também segundo ela, mais e mais clientes estão comprando capacidades de transmissão de 10Gbps.
A Lanautilus informou que a maior demanda por capacidade está no lado do oceano Atlântico do seus cabos e não do Pacífico. Isso está explicado pela presença do Brasil e Argentina que juntos devem transmitir bem mais que os países da outra costa. Assim como a Telefônica, eles estão trabalhando para aumentar a capacidade de transmissão de cabos de 10Gbps para 100Gbps sem precisar passar cabos, mas com a instalação de equipamentos mais modernos.
Um dado importante fornecido pela empresa PCCW Global, foi que na Ásia é passado um novo cabo óptico a cada 3 ou 4 meses e que nenhum cabo novo foi passado em 8 anos na América Latina. Isso é ainda um resquício da bolha de Internet.
A Crise e as Empresas De Telecomunicações
Várias empresas em vários paineis abordaram que quem está no comando das operadoras hoje em dia devido a crise são os CF0 (Chief Finance Office), ou os diretores financeiros. Os engenheiros apenas submetem projetos para serem aprovados ou não por eles.
Darwin
A empresa ANCEL mostou um slide bastante explicativo de como as operadoras se veem nesse novo mundo de Internet e conteúdo dinâmico: uma frase de Charles Darwin sobre a evolução. “Não são os mais fortes ou inteligentes que sobrevivem, mas quem mais facilmente se adapta as mudanças”. Isso reflete a situação que as operadoras vivem hoje, pois os maiores lucros estão nos dados em si e não nas transmissão dos mesmos. Quem faz mais dinheiro hoje são os sites de busca, conteúdo, redes sociais etc. Seus donos viram milionários da noite para o dia e suas empresas crescem exponencialmente. Os usuários estão mais interessados em comprar serviços de quem possui mais conteúdo a oferecer e não necessariamente quem detém a melhor qualidade de transmissão. Se bem que ter conteúdo e náo trasmiti-lo direito é um senhor tiro no pé, portanto é seguro assumir que uma rede rica em conteúdo irá ter cuidado para manter sua rede com uma qualidade pelo menos razoável.A solução desse problema para muitas operadoras até pouco tempo foi a compra de TVs, para poder agregar conteúdo a suas redes. Mas até esse modelo está ameaçado com a pirataria, busca do conteúdo diretamente da fonte e não de uma TV etc.
Não há respostas fáceis para esse dilema e aqueles que não perceberem as mudanças rapidamente, irão fechar suas portas.